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O homem de pijama

Deparei-me um dia desses com este conto do Eugenio Montale e resolvi traduzí-lo. Os poemas irei traduzir no futuro, quando tiver mais tempo e competência. Por ora, espero que gostem deste aqui.

O homem de pijama – Eugenio Montale

         Eu passeava pelo corredor, de pantufas e pijama, saltando de vez em quando um monte de roupas sujas. Meu hotel era de primeira classe porque tinha dois elevadores e um monta-cargas (quase sempre quebrados), mas não dispunha de um depósito para os lençóis, as fronhas e as toalhas provisoriamente não utilizadas, e as camareiras tinham de amontoá-los aqui e ali, nos cantos escondidos. Tarde da noite eu aparecia por estes cantos escondidos e por isso as camareiras não gostavam de mim. No entanto, depois de ter-lhes dado algumas gorjetas, consegui a tácita autorização para perambular por onde quisesse. Já passava de meia-noite. Um telefone tocou baixinho. Seria no meu quarto? Dirigi-me a ele sem fazer barulho, mas ouvi alguém atender; era no número 22, o quarto que ficava ao lado do meu. Estava para me retirar quando a voz que respondia, uma voz de mulher, disse: “Não venha ainda, Attilio: tem um homem de pijama no corredor. Passeia para lá e para cá e poderia te ver”.

            Ouvi do outro lado um grasnido confuso. “Ora”, respondeu ela, “não sei quem é. É um infeliz que sempre faz isso. Não venha, por favor. Qualquer coisa eu te aviso”. Bateu o telefone, ouvi seus passos no quarto. Afastei-me rapidamente deslizando como sobre patins. No fim do corredor havia um sofá, um segundo monte de roupas e uma parede. Escutei a porta do quarto 22 se abrir; a mulher observava-me por uma fresta. Não poderia ficar lá no fundo, retornei lentamente. Eu tinha cerca de dez segundos de tempo antes de passar na frente do 22. Examinei, num relâmpago, as várias hipóteses possíveis. 1) Voltar para meu quarto e me trancar lá dentro; 2) idem com uma variação, ou seja, informar a senhora de que eu tinha escutado tudo e que pretendia agradar-lhe retirando-me; 3) perguntar-lhe se ela realmente queria receber Attilio ou se eu era um pretexto escolhido por ela para se eximir de um indesejado combate noturno; 4) ignorar a conversa telefônica e continuar o meu passeio; 5) perguntar-lhe se pretendia eventualmente substituir o homem do telefone por mim para os fins descritos no número três; 6) exigir explicações a respeito do termo “infeliz” com o qual acreditava que me houvesse designado; 7) … a sétima custava a se formar no meu cérebro. Mas a esta altura já me encontrava diante da fresta. Dois olhos negros, um robe vermelho sobre uma camisa de seda, os cabelos curtos, mas bastante encaracolados. Durou um segundo, a fresta fechou-se bruscamente. Meu coração batia forte. Entrei no meu quarto e ouvi novamente o telefone tocar no número 22.  A mulher falava baixo, não podia escutar o que dizia. Voltei para corredor na ponta dos pés e então consegui distinguir algumas palavras: “É impossível, Attilio, estou dizendo que é impossível…”. Depois o clique do fone desligado e seus passos em direção à porta. Com um salto me joguei em direção ao monte de roupa suja número dois, remoendo dentro de mim as hipóteses 2, 3 e 5. A fresta abriu-se mais uma vez. Era impossível ficar ali parado. Disse para mim mesmo: sou um infeliz, mas como ela pode saber? E se passeando a salvasse de Attilio? Ou então salvasse Attilio dela? Não fui feito para ser juiz de nada, muito menos da vida dos outros. Retornei arrastando uma fronha com a pantufa. A fresta tinha aumentado, a cabeça cheia de cachos insinuava-se para fora. Encontrava-me a um metro daquela cabeça. Endireitei as costas depois de ter me livrado da pantufa com um pontapé. Depois disse com uma voz um tanto forte que ressoou no corredor: “Terminei de passear, senhora. Mas como sabe que sou um infeliz?”. “Todos nós somos” disse ela, e bateu a porta com força. De dentro, ouvi ainda o telefone que tocava.

MONTALE, Eugenio. L’uomo in pigiama. In: Farfalla di Dinard. Milano: Mondadori, 1970.

La solitudine dei numeri primi

Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos. Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros. São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos. Algumas vezes pensava que tivessem ido parar naquela sequência por engano, que tivessem ficado presos, como pequeninas pérolas enfiadas num colar. Outras vezes, no entanto, suspeitava que eles também gostariam de ser como os outros, apenas números quaisquer, mas que, por algum motivo, não tinham sido capazes. 

Estou de volta ao blog, cheia de ideias para este ano. O post que inaugura 2012 é sobre uma obra contemporânea e é uma sugestão do queridíssimo Giancarlo D’Anello.

La solitudine dei numeri primi é o romance de estreia do escritor (e doutor em física) Paolo Giordano e foi publicado em 2008 pela Mondadori. O título original era Dentro e fuori dall’acqua, que foi alterado (maravilhosamente, em minha opinião) pelo editor Antonio Franchini. A obra venceu o Premio Strega, o Premio Campiello, o Premio Fiesole Narrativa Under 40 e o Premio letterario Merck Serono. Com mais de um milhão de cópias vendidas, La solitudine dei numeri primi é um insólito exemplo de best-seller que merece ser lido.

Paolo Giordano afirma ter usado a matemática “como uma base metafórica e como método”. E esta é a grande novidade da obra. Segundo o autor, o método matemático “permite ser rigoroso, sério, veloz e constante”. Na há definição melhor para o livro.

Em 2010 foi levado às telas de cinema pelo diretor Saverio Costanzo e contou com a admirável atuação de Alba Rohrwacher (“Il papà di Giovanna” e “Mio fratello è figlio unico”) e de Luca Marinelli.

Este é o link para download do livro em italiano: http://livrosdehumanas.org/2010/01/24/livro-la-solitudine-dei-numeri-primi-em-italiano/

Alice tem sete anos e odeia as aulas de esqui, mas seu pai a obriga a frequentá-las. Em uma manhã de neblina densa, Alice sente muito frio e o leite do café da manhã lhe pesa no estômago. No teleférico, separa-se dos colegas e, escondida na neblina, faz xixi e cocô na roupa. Com vergonha, decide descer sozinha até o vale, mas acaba saindo da pista e quebra uma perna. Fica sozinha, incapaz de se mover, no fundo de uma fenda cheia de neve, se perguntando se ali há lobos também no inverno.

Mattia é um garoto inteligente e tem uma irmã gêmea, Michela, que é deficiente mental. A presença constante da irmã humilha Mattia em frente às outras crianças. Por isso, na primeira vez em que um colega de classe os convida a sua festa de aniversário, Mattia decide deixar Michela em um parque, prometendo voltar logo para encontrá-la.

Estes dois episódios iniciais, com suas consequências irreversíveis, serão marcados a fogo nas vidas de Alice e de Mattia, adolescentes, jovens e enfim adultos. Suas existências, tão profundamente marcadas, irão se cruzar e os dois protagonistas descobrirão estarem estreitamente unidos e ainda assim, invencivelmente divididos. Como aqueles números especiais, que os matemáticos chamam de primos gêmeos, como por exemplo 5 e 7, 11 e 13: dois números primos separados por um só número par, próximos, mas nunca o suficiente para tocarem-se realmente.

O romance narra a história dolorosa e comovente de Alice e de Mattia e das personagens que os acompanham em seu percurso. Paolo Giordano, com um olhar lúcido e profundo, com uma escrita de firmeza e maturidade surpreendentes, toca em um assunto que machuca pelas suas implicações emotivas. E presenteia os leitores com um romance capaz de abalar, pelo modo como alterna momentos de dureza e de tensão implacável com cenas mais refinadas e de emoção contida, cheias de ternura desolada e de esperança inflexível.

(Texto em italiano no site da editora Mondadori)

Itália – 150 anos!

Simpósio Internacional

Os cento e cinquenta anos da unificação italiana e as questões de identidade nacional no Brasil e na Itália

 

Período: 08 a 11 de novembro de 2011
Locais: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo
Centro Universitário Maria Antonia
Istituto Italiano di Cultura de São Paulo
Promoção:
Área de Língua e Literatura Italianas/Departamento de Letras Modernas/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP – SP
Colaboração:
Departamento de História/Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.
Departamento de Língua e Literatura Estrangeira/ Pós-Graduação em Estudos da Tradução/ Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
 
Link para o cartaz: http://www.slideshare.net/thaishelenacavalcanti/cartaz-simpsio-italia
Link para o folder: http://www.slideshare.net/thaishelenacavalcanti/folder-simposio

PROGRAMA
 
08 novembro (terça-feira)
Local: Centro Universitário Maria Antonia
Rua Maria Antonia, 258 e 294 – Vila Buarque- SP
 
18:0019:00
Abertura oficial
 
19:00 -20:00
– Conferência Prof. Guido Baldassarri (Università Degli Studi di Padova):
Giovanni Pascoli, l’Italia, l’emigrazione”
 
20:00- 22:00
Coquetel
 
 
09 novembro (quarta-feira)
Local: FFLCH- USP- Sala 08-Prédio Ciências Sociais
 
09:00- 10:00
Conferência Prof.ª Rita Librandi (Università Degli Studi di Napoli “L’Orientale”)
Una lingua in viaggio: l’italiano dell’Unità”
 
10:00-10:30
Coffee break
 
10:30-12:00
Mesa redonda: As artes na Itália e no Brasil
Coord. Prof. Dr. Luciano Migliaccio (UNICAMP/USP)
– Maria do Carmo Couto (PG – FAU/USP)–“Lo scultore Rodolfo Bernardelli e l’arte italiana”
– Prof. Dr. Luciano Migliaccio (UNICAMP/USP) –“Arte italiana e arte brasiliana nell’epoca dell’Unità”
– Prof. Dr. Lorenzo Mammì (USP) –“L’opera lirica fra Italia e Brasile”
 
14:30-17:00
Mesa redonda: Diferentes aspectos da unificação da Itália
Coord. Prof.ª Dr.ª Roberta Barni (USP)
 
– Prof.ª Dr.ª Flora de Paoli Faria (UFRJ) – “Os 150 anos da Unificação Italiana através da letra das canções”
– Prof. Dr. Andrea Lombardi (UFRJ) – “A Nação? Uma livre associação dos Municípios”.
Federalismo e visão de mundo em Carlo Pisacane
– Prof.ª Dr.ª Doris Nátia Cavallari (USP) – “Garibaldi, Mazzini e Cavour, i grandi del Risorgimento: ma le donne erano tutte “giardiniere”?”
– Prof.ª Dr.ª Maria Luisa Vassallo (leitora MAE, USP) e Prof.ª Alessandra Rondini (leitora MAE, UNESP – S. J. do Rio Preto) – “Paperino e l’unità d’Italia”
 
17:00-17:30
Coffee break
 
 
17:30- 19:00
Il Risorgimento nelle voci degli studenti: un collage di lavori di studenti USP-UNESP/Rio Preto”
Projeção de vídeo dedicado ao Risorgimento italiano, organizado pelas leitoras do MAE Prof.ª Alessandra Rondini (UNESP – S. J. do Rio Preto) e Prof.ª Maria Luisa Vassallo (USP) e realizado por Márcio Santana (UNESP) a partir de trabalhos dos alunos dessas universidades.
 
19:30 -21:00
Mesa redonda: Entre duas identidades linguísticas: os ‘italianos’ do Brasil
Coord. Prof.ª Dr.ª Paola Baccin (USP)
 
– Prof.ª Sandra Bagno (Università Degli Studi di Padova) – “La dissimulazione, dal Principe di Machiavelli alla “Teoria do Medalhão” de Machado de Assis”
– Prof. Dr. Tommaso Raso (UFMG)– “Nuovi obiettivi e strumenti per la ricerca e l’insegnamento dell’italiano in Brasile”
– Prof.ª Dr.ª Paola Baccin (USP) – “O tratamento dos elementos interculturais em um dicionário para aprendizes de italiano como língua estrangeira”
 
 
10 novembro (quinta-feira)
Local: FFLCH- USP- Sala 08-Prédio Ciências Sociais
 
09:00-10:00
Conferência Prof.ª Dr.ª Vitalina Frosi (UCS)
A questão da identidade dos ítalo-descendentes do Nordeste do Rio Grande do Sul”
 
10:00-10:30
Coffee break
 
10:30-12:00
Mesa redonda: Tradução: entre identidade e diferença
Coord. Prof.ª Dr.ª Andreia Guerini (UFSC)
 
-Prof.ª Dr.ª Andreia Guerini (UFSC) – “La traduzione fra Italia e Germania nel periodo dell’ Unificazione”
-Prof. Dr. Alejandro Patat (Università Degli Studi di Siena) – “La traduzione della letteratura italiana nell’America Latina dell’Indipendenza e dell’Organizzazione Nazionale. Il caso argentino”
-Prof. Dr. Francis H. Aubert (USP) –“A tradução literária: o dizer-se na língua/cultura do outro”
 
 
14:30-15:30
Conferência Prof. Emilio Franzina (Università Degli Studi di Verona)
Fare l’Italia fuori d’Italia: esperienze d’italiani emigrati e di italo discendenti in Brasile attraverso il tempo (1836-1960).”
 
15:30-16:00
Coffee break 
 
16:00-18:00
Mesa redonda História e imigração
Coord. Prof. Dr. Luigi Biondi (UNIFESP)
 
– Prof.ª Dr.ª Endrica Geraldo (UNICAMP) – “A campanha de nacionalização e os imigrantes italianos no Estado Novo”
– Prof. Dr. Federico Croci (Università degli Studi di Genova) –“Come desidero tornare presto a San Paolo”: Identità nazionale e appartenenze culturali: l’esperienza di guerra di un italo-brasiliano, 1915-1918”
– Prof. Dr Oswaldo Truzzi (UFSCar) – “Percursos e descaminhos da italianidade no interior paulista”
Prof. Dr. Michael M. Hall (UNICAMP) – “São Paulo e seus imigrantes: reflexões” 
 
18:00 – 19:30
Coffee break
 
19:30-20:30
Conferência Prof. Angelo Trento (Università degli Studi di Napoli “L’Orientale”)
Italiani e italianità in Brasile dall’inizio dell’emigrazione di massa alla seconda guerra mondiale”
 
 
Local: Istituto Italiano di Cultura de São Paulo
Av. Higienópolis, 436 – Higienópolis- SP
 
18:30 – 21:00
Exibição do filme de Florestano Vancini “Bronte – Cronaca di un massacro che i libri di storia non hanno raccontato” (1972).
O filme reconstrói o episódio da chacina de Bronte, acontecida em 1860 na cidade siciliana de Bronte, durante a Spedizione dei Mille de Giuseppe Garibaldi.
Apresentação: Prof. Dr. Maurizio Russo (Instituto Norberto Bobbio – Cultura, Democracia e Direitos Humanos)
 
 
11 novembro (sexta-feira)
Local: FFLCH- USP – Sala 08-Prédio Ciências Sociais
 
09:00-10:00
Conferência Prof.ª Lucia Strappini (Università per gli Stranieri di Siena)
Figure esemplari dell’identità italiana
  
10:00- 10:30
Coffee break
  
10:30-12:00
Mesa redonda A construção da identidade nacional através da literatura
Coord. Prof.ª Dr.ª Maria Cecilia Casini (USP)
– Prof. Dr. Duilio Caocci (Università di Cagliari) – “Letteratura sarda nell’Ottocento: approssimazioni e persistenze nell’epoca dell’Unità d’Italia”
– Prof. Dr. Alejandro Patat (Università per Stranieri di Siena) –“Sull’emigrazione nelle Americhe nella letteratura di Nievo”
– Prof. Dr. Marcos Antonio de Moraes (Instituto de Estudos Brasileiros, USP) –“Epistolografia modernista brasileira e identidade nacional”
 
 
14:30-16:30
Mesa redonda: A língua italiana de 1861 a hoje
Coord. Prof.ª Dr.ª Elisabetta Santoro (USP)
 
– Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona (UFRJ) – “Pellegrino Artusi: il Manzoni della cucina italiana e il Cavour delle pentole?”
– Prof.ª Dr.ª Angela Zucchi (USP) – “Elemento de transmissão, unificação, normativismo, conservação e difusão: o dicionário na Itália além dos 150 anos”
– Prof.ª Dr.ª Elisabetta Santoro (USP) – “L’Italia linguistica dall’unità nazionale a oggi: il rapporto tra italiano e dialetti”
  
17:00-17:30
Coffee break
 
19:30-20:30
Conferência Prof. Dr. João Adolfo Hansen (USP)
Historiografia literária e nacionalismo: as letras coloniais

O sentido de escrever

Decidi começar a legendar algumas entrevistas, ou trechos de entrevistas, concedidas por escritores italianos famosos e postar no blog.

A primeira delas é de Pier Paolo Pasolini (1922 – 1975), famoso pelo seu trabalho como escritor, mas principalmente, como diretor de cinema. O vídeo contém um trecho curto da entrevista, mas bastante significativo para perceber a passagem de Pasolini, de um forte engajamento social a um pessimismo total em relação à sociedade italiana.

Principais obras literárias:

– La meglio gioventù (1954)
– Ragazzi di Vita (1955)
– Le ceneri di Gramsci (1957)
– Una vita violenta (1959)
– Il sogno di una cosa (1962)
 
Principais obras cinematográfias:
 
– Accattone (1961)
– Il vangelo secondo Matteo (1964)
– Edipo Re (1967)
– Il Decameron (1971)
– I racconti di Chanterbury (1972)
– Salò o le 120 giornate di Sodoma (1975)
 

Espero que gostem!

Giuseppe Ungaretti

        – Brevíssima biografia

        Giuseppe Ungaretti nasceu em 1888 no Egito, embora de família toscana. Aprendeu desde cedo a gostar de literatura, principalmente a francesa e a italiana.

        Em 1912 se muda para Paris para fazer seus estudos universitários na Sorbonne e entra em contato com grandes intelectuais como Apollinaire, Picasso, De Chirico, Papini, Palazzeschi  e Marinetti.

        Com a entrada na Itália na Primeira Guerra Mundial, em 1915, Ungaretti  é enviado ao fronte de batalha do Carso. A experiência da guerra o faz refletir sobre a condição humana e a fragilidade da vida e, como resultado, publica um volume de poemas intitulado Il porto sepolto.

        Com o fim da guerra, Ungaretti retorna a Paris onde é correspondente do jornal fascista Popolo d’Italia e, em 1919, publica o segundo volume de poesias, Allegria di naufragi. A inovação na poesia italiana promovida por Ungaretti é a recusa de toda a forma métrica, da sintaxe e da retórica (elemento muito presente na poesia do D’Annunzio, por exemplo). A forma fragmentária de seus versos, escritos entre os mortos da Primeira Guerra Mundial, refletem um mundo estraçalhado pelo horror da guerra, e a palavra, não mais a oração, ganha um valor absoluto.

        Em 1923 se muda para Roma dois anos depois assina o Manifesto degli intellettuali fascisti. Em 1933 publica Sentimento del tempo, obra que marca sua conversão ao catolicismo e, ao mesmo tempo, um retorno à métrica tradicional.

        No ano de 1937, Ungaretti vem ao Brasil para ensinar Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Durante sua permanência no Brasil, Ungaretti perde a mãe, o irmão e um filho de nove anos. O livro Il Dolore, publicado em 1947 retrata os dramas pessoais do poeta e também o drama coletivo de um mundo em guerra.

        Em 1942 retorna à Itália onde ensina Literatura Italiana na Universidade de Roma. Suas obras completas são publicadas em 1942 com o título de Vita di un uomo, fazendo referência ao forte valor biográfico de seus poemas. Ungaretti falece em Milão em 2 de junho de 1970.

    

“Somos todos italianos”

Resolvi postar hoje um texto do Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil na Itália, que foi publicado pela Folha de São Paulo em 3 de abril de 2011. Não se trata de nenhuma análise literária, mas achei que valia a pena divulgar. O autor critica severamente a degradação moral no governo do Primeiro-Ministro Silvio Berlusconi, mas ao mesmo tempo faz uma belíssima declaração de amor ao povo italiano e isso inclui, obviamente, os escritores, os pintores, os filósofos, os compositores, os cineastas, enfim, todos os italianos que contribuiram para tornar o mundo mais humano.

Aniversários desconfortáveis

“Há vitórias que não se devem comemorar”, sentenciava o barão do Rio Branco. Entre elas talvez estejam efemérides desconfortáveis por obrigarem a comparações melancólicas entre o sonho e sua frustrante realização, como os 150 anos da unificação alemã e italiana. Os alemães até que encontraram uma saída. Festejam os 20 anos da reunificação, data respeitável. Com isso, podem esquecer a proclamação na Galeria dos Espelhos de Versalhes do Segundo Reich, de infausta memória (18/1/1871). Para não falar no infame Terceiro Reich, o mais abominável Estado da história em termos da morte e do sofrimento que levou a dezenas de milhões de pessoas no mundo inteiro.

No caso da Itália, o problema não se deve à culpa em razão da destruição infligida aos outros, mas à vergonha pela dor causada aos próprios cidadãos. A interminável crise das instituições culminou num abismo de degradação moral incompatível com a mera evocação dos nomes dos fundadores da unidade, Mazzini, Garibaldi e Cavour. Compreende-se, portanto, que tenha passado quase em envergonhado silêncio a comemoração dos 150 anos da unificação, em 17 de março. Redimiu-se a data com a execução no Scala de Milão do “Nabucco” de Verdi, na presença do presidente Giorgio Napolitano e do triste personagem que ora chefia o governo.

Quando lentamente se ergueu, majestosa e comovente, a profunda massa coral do canto dos Exilados, quem a ouviu no teatro ou na imaginação não ousaria duvidar de que, sem a Itália, o mundo seria muito mais pobre e apagado. A dádiva da Itália é o espírito de Francisco de Assis e Dante, o gênio de Tomás de Aquino e Galileu, a invenção de Leonardo e Michelangelo, a graça de Giotto e Fra Angélico, a elegância de Rafael e Botticelli, a majestade de Masaccio e Piero della Francesca, o vigor de Ticiano e Caravaggio, o traço de Bramante e Palladio, a harmonia de Palestrina a Vivaldi, o teatro da Commedia Dell’Arte a Pirandello, a voz humana de Rossini a Verdi e Puccini, a agudeza do pensamento crítico de Maquiavel a Croce e Gramsci. Notável mais pelas omissões que as presenças, esta lista mostra como é vão tentar resumir o que recebemos da cultura italiana. Mesmo a beleza e a vida do espírito não bastam para definir o inconfundível na maneira de ser italiana: o profundo sentido de humanidade, aquilo que deu a Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, e a Noites de Cabíria, de Fellini, sua marca inesquecível.

É essa humanidade que emanava dos velhos imigrantes italianos anônimos e humildes, que, no poema de Ferlinghetti, se sentavam nas praças de todas as sonhadas Américas dando migalhas aos pombos, esperando um a um a hora de morrer, o “nonino” de Piazzolla na Argentina, o nosso Volpi de mãos nodosas construindo suas molduras e fabricando suas tintas.

Em um romance de Cesare Pavese, um aluno pergunta: “Professor, o senhor ama a Itália?” E ele responde: “A Itália, não; eu amo os italianos”. Como separá-los? No amor da beleza, na luta pela justiça e por tudo aquilo que torna os homens mais humanos, pode-se dizer que somos todos italianos, aplicando à Itália o que diz o salmo: “Em Jerusalém nasceu todo homem”, pois nela estão nossas fontes.

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.

Conversazione in Sicilia

        O texto que inaugura efetivamente o blog foi escolhido por ser talvez o primeiro capítulo mais bonito do romance italiano. Trata-se de Conversazione in Sicilia, romance de Elio Vittorini publicado pela primeira vez entre os anos de 1938-1939 pela revista florentina Letteratura.

        O romance narra a história de Silvestro, um homem de 30 anos que vive no norte da Itália e retorna à Sicília, sua terra natal, para visitar a mãe depois de 15 anos. A viagem de Silvestro é uma viagem a uma Sicília abandonada, miserável e ainda assim lugar mítico, incontaminado, com pessoas movidas pela esperança de salvar a “humanidade perdida”. A viagem é também um retorno à infância e ao mundo interior o que concede a ela uma dimensão fantástica, irreal.

       Impossível ler a obra e não pensar em Dante, que também “nel mezzo del cammin” de sua vida, encontra-se em uma selva escura e inesperadamente inicia uma viagem a outro reino. A selva escura de Silvestro é o regime fascista. Diz Dante no primeiro canto do Inferno:

        Ah! que a tarefa de narrar é dura
        essa selva selvagem, rude e forte,
        que volve o medo à mente que a figura1.
 
 

        Dura também é a tarefa de narrar o horror do Fascismo nos anos 30 e a impotência do homem diante de um regime totalitário. Para isso Vittorini opta por uma linguagem metafórica, carregada de símbolos, alternando lirismo e realismo, uma linguagem, enfim, completamente diferente da retórica mussoliniana. O primeiro capítulo do livro é uma metáfora belíssima do Fascismo naquele período da história italiana. Também em um dos diálogos mais bonitos do livro, no qual o protagonista conversa com o soldado morto (que aparece ainda como uma criança), Vittorini ataca duramente o fascismo e seu discurso de enaltecimento aos herois de guerra. O livro inteiro apresenta-se como uma crítica ao Fascismo em pleno apogeu e como uma importante denúncia da verdadeira situação social na Itália naquele período, contrariando totalmente o discurso do regime. E tudo isso com uma sensibilidade alegórica e uma potência poética que fazem de Conversazione in Sicilia uma obra-prima do neorrealismo italiano.

       Em uma carta a Palmiro Togliatti, dirigente do Partido Comunista Italiano (PCI) que havia acusado o escritor de não colocar sua obra a serviço da causa revolucionária, Vittorini escreve: “Nem quem toca o pífaro para uma política revolucionária é menos árcade e pastorzinho do que quem toca para uma política reacionária e conservadora. […] Revolucionário é o escritor que consegue colocar, através de sua obra, exigências revolucionárias diversas das que a política coloca”.2

        Vittorini com Conversazione in Sicilia consegue criar obra verdadeiramente revolucionária.

        Eu estava, naquele inverno, tomado de furores abstratos 3. Não direi quais, não foi sobre isso que me propus a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos e não heroicos, nem vivos, furores, de qualquer forma, pelo gênero humano perdido. Isso já há muito tempo, e eu andava de cabeça baixa. Via notícias de jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; via amigos, por uma hora, duas horas, e ficava com eles sem dizer uma palavra, abaixava a cabeça; e eu tinha uma moça ou mulher que me esperava, mas nem mesmo com ela eu dizia uma palavra, também com ela abaixava a cabeça. Chovia e passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrava nos sapatos, e não havia nada além disso: chuva, massacres nas notícias dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não a esperança, mas a quietude.

         Era isso o terrível: a quietude na não-esperança. Considerar o gênero humano perdido e não ter vontade de fazer nada contra, desejo de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, não tinha vontade de nada. Não me importava se a minha mulher estivesse me esperando; encontrá-la ou não, ou folhear um dicionário era a mesma coisa para mim; e sair para ver os amigos, os outros, ou ficar em casa era a mesma coisa para mim. Eu ficava quieto, era como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem nunca soubesse o que significa ser feliz, como se não tivesse nada a dizer, a afirmar, negar, nada meu para pôr em jogo, nada a ouvir, a dar e nenhuma disposição a receber, e como se nunca em todos esses anos de existência tivesse comido pão, bebido vinho, ou bebido café, como se nunca tivesse me deitado na cama com uma mulher, tido filhos, dado socos em alguém, ou não achasse nada disso possível, como se nunca tivesse tido uma infância na Sicília entre figos-da-índia e enxofre, nas montanhas; mas me sentia perturbado dentro de mim por furores abstratos, e pensava no gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos.

1 Tradução de Italo Eugênio Mauro.

2 Carta a Togliatti, publicada no jornal Il Politecnico em 1947.

3 A tradução deste capítulo é de minha autoria. Existe uma tradução do romance para o português feita por Valêncio Xavier e Maria Helena Arrigucci, publicada pela editora Cosac & Naify e lançada em 2002.

Para começar

Giacomo Leopardi

“Quem quiser fazer bem a Itália, antes de tudo deverá mostrar-lhe uma língua filosófica, sem a qual eu acredito que ela nunca terá sua própria literatura moderna, e sem uma literatura moderna própria, nunca será uma nação”. (Carta de Leopardi a Pietro Giordani, 14/07/1821)

Nos dias de hoje, esta declaração do maior poeta italiano do século XIX pode causar algum espanto entre aqueles que não conhecem a história italiana. É importante, porém, lembrar que durante muito tempo a Itália (ou o território que hoje chamamos Itália) sofreu com o abismo existente entre a língua literária e a língua falada, abismo esse que motivou a frase de Leopardi, o qual considerava de fundamental importância uma transformação na língua italiana para que ela pudesse atender de fato às necessidades comunicativas de toda a população e assim tornar-se um idioma nacional. A questão da língua influenciou também para que a Itália permanecesse fora das correntes literárias europeias e tardasse a desenvolver uma literatura moderna, como afirma o poeta (é só pensarmos na chegada tardia gênero romance na literatura italiana). Não podemos esquecer também que a formação do Reino de Itália (1861) se deu de forma bastante tardia em relação aos outros Estados europeus, e mais de três séculos após o descobrimento do Brasil. Tendo consciência do contexto em que foi escrita, podemos considerar a declaração de Leopardi bastante coerente e valiosa para o debate acerca da língua nacional, da situação literária italiana no século XIX e também da formação do Estado nacional unificado.

Apesar de tudo isso, o que a Itália mostrou ao mundo, nesses quase dois séculos que nos separam da frase de Leopardi, foi a construção de uma nação forte e influente (apesar dos pesares), de uma língua que conta com quase 70 milhões de falantes e de uma literatura considerada importantíssima e cujo reconhecimento mundial vai muito além dos 5 prêmios Nobel recebidos até agora.

É por isso que, no ano em que a Itália completa o sesquicentenário de sua unificação, este blog surge como uma forma de homenagear a literatura italiana e de divulgá-la entre os leitores brasileiros. Acredito não ser necessário explicar as dezenas de motivos que ligam o Brasil à Itália, motivos que vão desde a origem de nossas línguas até a forte imigração ocorrida no início do século passado. Nossas histórias estão entrelaçadas, assim como nossas literaturas, e espero que este blog possa colaborar de alguma forma a tornar estes laços ainda mais fortes.