O texto que inaugura efetivamente o blog foi escolhido por ser talvez o primeiro capítulo mais bonito do romance italiano. Trata-se de Conversazione in Sicilia, romance de Elio Vittorini publicado pela primeira vez entre os anos de 1938-1939 pela revista florentina Letteratura.

        O romance narra a história de Silvestro, um homem de 30 anos que vive no norte da Itália e retorna à Sicília, sua terra natal, para visitar a mãe depois de 15 anos. A viagem de Silvestro é uma viagem a uma Sicília abandonada, miserável e ainda assim lugar mítico, incontaminado, com pessoas movidas pela esperança de salvar a “humanidade perdida”. A viagem é também um retorno à infância e ao mundo interior o que concede a ela uma dimensão fantástica, irreal.

       Impossível ler a obra e não pensar em Dante, que também “nel mezzo del cammin” de sua vida, encontra-se em uma selva escura e inesperadamente inicia uma viagem a outro reino. A selva escura de Silvestro é o regime fascista. Diz Dante no primeiro canto do Inferno:

        Ah! que a tarefa de narrar é dura
        essa selva selvagem, rude e forte,
        que volve o medo à mente que a figura1.
 
 

        Dura também é a tarefa de narrar o horror do Fascismo nos anos 30 e a impotência do homem diante de um regime totalitário. Para isso Vittorini opta por uma linguagem metafórica, carregada de símbolos, alternando lirismo e realismo, uma linguagem, enfim, completamente diferente da retórica mussoliniana. O primeiro capítulo do livro é uma metáfora belíssima do Fascismo naquele período da história italiana. Também em um dos diálogos mais bonitos do livro, no qual o protagonista conversa com o soldado morto (que aparece ainda como uma criança), Vittorini ataca duramente o fascismo e seu discurso de enaltecimento aos herois de guerra. O livro inteiro apresenta-se como uma crítica ao Fascismo em pleno apogeu e como uma importante denúncia da verdadeira situação social na Itália naquele período, contrariando totalmente o discurso do regime. E tudo isso com uma sensibilidade alegórica e uma potência poética que fazem de Conversazione in Sicilia uma obra-prima do neorrealismo italiano.

       Em uma carta a Palmiro Togliatti, dirigente do Partido Comunista Italiano (PCI) que havia acusado o escritor de não colocar sua obra a serviço da causa revolucionária, Vittorini escreve: “Nem quem toca o pífaro para uma política revolucionária é menos árcade e pastorzinho do que quem toca para uma política reacionária e conservadora. […] Revolucionário é o escritor que consegue colocar, através de sua obra, exigências revolucionárias diversas das que a política coloca”.2

        Vittorini com Conversazione in Sicilia consegue criar obra verdadeiramente revolucionária.

        Eu estava, naquele inverno, tomado de furores abstratos 3. Não direi quais, não foi sobre isso que me propus a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos e não heroicos, nem vivos, furores, de qualquer forma, pelo gênero humano perdido. Isso já há muito tempo, e eu andava de cabeça baixa. Via notícias de jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; via amigos, por uma hora, duas horas, e ficava com eles sem dizer uma palavra, abaixava a cabeça; e eu tinha uma moça ou mulher que me esperava, mas nem mesmo com ela eu dizia uma palavra, também com ela abaixava a cabeça. Chovia e passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrava nos sapatos, e não havia nada além disso: chuva, massacres nas notícias dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não a esperança, mas a quietude.

         Era isso o terrível: a quietude na não-esperança. Considerar o gênero humano perdido e não ter vontade de fazer nada contra, desejo de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, não tinha vontade de nada. Não me importava se a minha mulher estivesse me esperando; encontrá-la ou não, ou folhear um dicionário era a mesma coisa para mim; e sair para ver os amigos, os outros, ou ficar em casa era a mesma coisa para mim. Eu ficava quieto, era como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem nunca soubesse o que significa ser feliz, como se não tivesse nada a dizer, a afirmar, negar, nada meu para pôr em jogo, nada a ouvir, a dar e nenhuma disposição a receber, e como se nunca em todos esses anos de existência tivesse comido pão, bebido vinho, ou bebido café, como se nunca tivesse me deitado na cama com uma mulher, tido filhos, dado socos em alguém, ou não achasse nada disso possível, como se nunca tivesse tido uma infância na Sicília entre figos-da-índia e enxofre, nas montanhas; mas me sentia perturbado dentro de mim por furores abstratos, e pensava no gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos.

1 Tradução de Italo Eugênio Mauro.

2 Carta a Togliatti, publicada no jornal Il Politecnico em 1947.

3 A tradução deste capítulo é de minha autoria. Existe uma tradução do romance para o português feita por Valêncio Xavier e Maria Helena Arrigucci, publicada pela editora Cosac & Naify e lançada em 2002.

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