Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos. Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros. São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos. Algumas vezes pensava que tivessem ido parar naquela sequência por engano, que tivessem ficado presos, como pequeninas pérolas enfiadas num colar. Outras vezes, no entanto, suspeitava que eles também gostariam de ser como os outros, apenas números quaisquer, mas que, por algum motivo, não tinham sido capazes. 

Estou de volta ao blog, cheia de ideias para este ano. O post que inaugura 2012 é sobre uma obra contemporânea e é uma sugestão do queridíssimo Giancarlo D’Anello.

La solitudine dei numeri primi é o romance de estreia do escritor (e doutor em física) Paolo Giordano e foi publicado em 2008 pela Mondadori. O título original era Dentro e fuori dall’acqua, que foi alterado (maravilhosamente, em minha opinião) pelo editor Antonio Franchini. A obra venceu o Premio Strega, o Premio Campiello, o Premio Fiesole Narrativa Under 40 e o Premio letterario Merck Serono. Com mais de um milhão de cópias vendidas, La solitudine dei numeri primi é um insólito exemplo de best-seller que merece ser lido.

Paolo Giordano afirma ter usado a matemática “como uma base metafórica e como método”. E esta é a grande novidade da obra. Segundo o autor, o método matemático “permite ser rigoroso, sério, veloz e constante”. Na há definição melhor para o livro.

Em 2010 foi levado às telas de cinema pelo diretor Saverio Costanzo e contou com a admirável atuação de Alba Rohrwacher (“Il papà di Giovanna” e “Mio fratello è figlio unico”) e de Luca Marinelli.

Este é o link para download do livro em italiano: http://livrosdehumanas.org/2010/01/24/livro-la-solitudine-dei-numeri-primi-em-italiano/

Alice tem sete anos e odeia as aulas de esqui, mas seu pai a obriga a frequentá-las. Em uma manhã de neblina densa, Alice sente muito frio e o leite do café da manhã lhe pesa no estômago. No teleférico, separa-se dos colegas e, escondida na neblina, faz xixi e cocô na roupa. Com vergonha, decide descer sozinha até o vale, mas acaba saindo da pista e quebra uma perna. Fica sozinha, incapaz de se mover, no fundo de uma fenda cheia de neve, se perguntando se ali há lobos também no inverno.

Mattia é um garoto inteligente e tem uma irmã gêmea, Michela, que é deficiente mental. A presença constante da irmã humilha Mattia em frente às outras crianças. Por isso, na primeira vez em que um colega de classe os convida a sua festa de aniversário, Mattia decide deixar Michela em um parque, prometendo voltar logo para encontrá-la.

Estes dois episódios iniciais, com suas consequências irreversíveis, serão marcados a fogo nas vidas de Alice e de Mattia, adolescentes, jovens e enfim adultos. Suas existências, tão profundamente marcadas, irão se cruzar e os dois protagonistas descobrirão estarem estreitamente unidos e ainda assim, invencivelmente divididos. Como aqueles números especiais, que os matemáticos chamam de primos gêmeos, como por exemplo 5 e 7, 11 e 13: dois números primos separados por um só número par, próximos, mas nunca o suficiente para tocarem-se realmente.

O romance narra a história dolorosa e comovente de Alice e de Mattia e das personagens que os acompanham em seu percurso. Paolo Giordano, com um olhar lúcido e profundo, com uma escrita de firmeza e maturidade surpreendentes, toca em um assunto que machuca pelas suas implicações emotivas. E presenteia os leitores com um romance capaz de abalar, pelo modo como alterna momentos de dureza e de tensão implacável com cenas mais refinadas e de emoção contida, cheias de ternura desolada e de esperança inflexível.

(Texto em italiano no site da editora Mondadori)

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